Cabo Frio litoral do Novo MundoDo alto das dunas da Praia do Forte consigo observar toda dimensão da enseada, vigiada pelo Forte São Matheus, com seus canhões apontando para o mar, por séculos.

O noroeste bate forte e eleva os grãos de areia espetando minha pele,  que confortada pelo próprio vento, se arrepia como se fosse tocada de um jeito carinhoso.

Penso no que sentiu Vespúcio, quando por aqui chegou. Ele talvez tenha arrancado as botas, arremessando-as para longe e, com enorme sentimento de liberdade,  pisou na fina areia da praia. E de tão macia que ela era, achou que caminhava nas nuvens. Teria, então o português, divagado sobre, com que capricho, Deus, usando nanquim e pincéis de crina de alazão, pintou este pedacinho de litoral do Novo Mundo.

E depois de dar alguns passos, notou sua própria imagem refletida no espelho d’água, formado pelo recuo da maré da tarde. Não conseguiu resistir e, olhando para o horizonte, ajoelhou-se para reverenciar o pôr do sol

Confesso que me permiti fantasiar a reação do navegador, que após cruzar o oceano e encarar o paraíso, curvou-se, humilde, ante à sua beleza.

É verdade que jamais saberemos como ele se sentiu, quando apreciou pela primeira vez a praia que seria conhecida pelo forte que mais tarde mandariam construir. Mas o certo é que a visão desta enseada alegra os olhos e alivia a alma. E mesmo que Vespúcio não tenha se ajoelhado para agradecer ao Criador pelo maravilhoso poente avermelhado, me sinto convocado pelo último raio de sol, que continua cedendo à escuridão, a dar meu testemunho.

E então me entrego, sorrindo, numa oração silenciosa. E agradeço a Ele por ter feito este cantinho do planeta como quem esculpe um poema sublime, sem usar  palavras. Mas diverso em tons, completo em forma, repleto em cores. Perfeito em tudo.